{"id":38370,"date":"2026-06-28T11:44:40","date_gmt":"2026-06-28T14:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/superinteressantes.com.br\/index.php\/2026\/06\/28\/quilombo-mantem-tradicao-centenaria-simbolo-da-resistencia-negra\/"},"modified":"2026-06-28T11:44:40","modified_gmt":"2026-06-28T14:44:40","slug":"quilombo-mantem-tradicao-centenaria-simbolo-da-resistencia-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/superinteressantes.com.br\/index.php\/2026\/06\/28\/quilombo-mantem-tradicao-centenaria-simbolo-da-resistencia-negra\/","title":{"rendered":"Quilombo mant\u00e9m tradi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria, s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra"},"content":{"rendered":"<p> Por MRNews<br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p><strong>A segunda-feira (29) marca\u00a0mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se re\u00fanem, a partir das 17h, em torno de uma fogueira.<\/strong><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou h\u00e1 mais de 150 anos com Manoel Caetano Madeira, homem negro, nascido escravizado em 1841, no munic\u00edpio de Para\u00edba do Sul, na divisa com o estado de Minas Gerais, cujos padroeiros eram S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>No sincretismo religioso, o dia de S\u00e3o Pedro \u00e9 tido como Orix\u00e1 Xang\u00f4. Mas Manoel, como escravo, n\u00e3o podia manifestar cren\u00e7as da popula\u00e7\u00e3o negra. Viveu at\u00e9 os 41 anos sob o regime da escravid\u00e3o, mas nunca deixou de acender a fogueira no dia 29 de junho.<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/06\/28\/juliano-cazarre-se-pronuncia-apos-processo-movido-por-ex-baba-e-rebate-acusacoes\/\">Juliano Cazarr\u00e9 se pronuncia ap\u00f3s processo movido por ex-bab\u00e1 e rebate acusa\u00e7\u00f5es<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/06\/28\/rd-congo-vence-de-virada-e-segue-na-copa-assim-como-colombia-e-portugal\/\">RD Congo vence de virada e segue na Copa, assim como Col\u00f4mbia e Portugal<\/a><\/strong><\/p>\n<p>\u201cQuando ele come\u00e7a a dar uma vis\u00e3o maior a essa fogueira, ele a chama de fogueira de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo. S\u00f3 que, intrinsecamente, ele est\u00e1 acendendo uma fogueira para Xang\u00f4 e fazendo os seus fundamentos\u201d, disse \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> o bisneto de Manoel, Fausto Manoel Madeira Neto, que hoje \u00e9 quem mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A fogueira permitia fortalecer v\u00ednculos comunit\u00e1rios, transmitir conhecimentos ancestrais e proteger identidades coletivas. Ao seu redor circulavam hist\u00f3rias, ensinamentos, afetos e formas de resist\u00eancia que ajudaram gera\u00e7\u00f5es a manter vivas suas refer\u00eancias culturais.<\/p>\n<p><strong>Por essa raz\u00e3o, a Fogueira de Xang\u00f4 n\u00e3o representa apenas uma tradi\u00e7\u00e3o familiar, mas constitui um patrim\u00f4nio vivo, uma estrat\u00e9gia de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, afirma\u00e7\u00e3o da ancestralidade e continuidade cultural que manteve viva a chama da resist\u00eancia negra.<\/strong><\/p>\n<p>Manoel trabalhou em fazendas de caf\u00e9 e teve 36 filhos com quatro mulheres. E todos moravam com ele. O \u00faltimo tio-av\u00f4 vivo foi encontrado em Vassouras, cidade do centro-sul do estado.<\/p>\n<h2>Ressignifica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Quando Manoel morreu, aos 105 anos, em 1946, seu filho Fausto Manoel Madeira mudou-se para o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde passou a dar continuidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, fazendo a fogueira, ano ap\u00f3s ano. Fausto Manoel Madeira entrou na umbanda e reencontrou o pai de santo ao qual Manoel o dera como presente, em Vassouras. Esse ato \u00e9 semelhante ao batismo e significa consagrar uma crian\u00e7a \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de um Orix\u00e1 ou guia espiritual.<\/p>\n<p>Essa fogueira ganha ent\u00e3o uma ressignifica\u00e7\u00e3o. Quando o filho de Manoel Caetano morre, em 1988, a fogueira continua sendo acesa no quintal da casa at\u00e9 que Fausto Madeira Neto entrou na umbanda e deu prosseguimento \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. \u201cE passei a acender essa fogueira at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<p><strong>Atualmente, a fogueira \u00e9 promovida pelo Terreiro de Umbanda S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo \u2013 Kabi\u00fana do Sert\u00e3o e a Obra Social Filhos da Raz\u00e3o e Justi\u00e7a (OSFRJ), coordenados por Fausto Neto.<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNa verdade, essa fogueira \u00e9 o fundamento do nosso terreiro\u201d. Ele herdou do av\u00f4 a entidade, o nome, a macumba. \u201cFoi a maior e mais bela heran\u00e7a que ele me deixou: a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Festa<\/h2>\n<p>Desde o tempo do av\u00f4, sempre houve uma festa muito grande em torno da fogueira. Depois que ele morreu, os descendentes trouxeram a fogueira para o terreiro, quando Fausto Manoel Madeira Neto assumiu todo o processo de responsabilidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 uma festa muito grande. As pessoas amam. O pessoal fica aguardando. \u00c9 uma festa muito esperada, um acontecimento. As crian\u00e7as no quilombo ficam loucas; j\u00e1 est\u00e3o montando bandeirinhas e reverenciam Xang\u00f4 e os santos S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Segundo Fausto Neto, trata-se de uma quest\u00e3o de pertencimento mesmo. \u201cA gente vive em uma comunidade majoritariamente preta; n\u00f3s somos um terreiro. E a gente faz um trabalho voltado justamente para o fortalecimento da cultura antirracista, da educa\u00e7\u00e3o, do trabalho social\u201d. A partir do terreiro, s\u00e3o feitas e distribu\u00eddas 140 refei\u00e7\u00f5es diariamente, de segunda-feira a s\u00e1bado, como marca da solidariedade existente no quilombo.<\/p>\n<p><strong>Para as crian\u00e7as, tem a\u00e7\u00f5es educativas e a Dan\u00e7a do Mineiro Pau, que elas curtem e que \u00e9 o nome da comunidade onde moram.<\/strong> Essa \u00e9 uma dan\u00e7a folcl\u00f3rica e afro-brasileira, onde os participantes dan\u00e7am em pares ou c\u00edrculos batendo bast\u00f5es de madeira ao ritmo da m\u00fasica. \u201cEu dancei o Mineiro Pau h\u00e1 40 anos e a gente trouxe de volta. As crian\u00e7as fazem sucesso dan\u00e7ando o Mineiro Pau\u201d.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o do acendimento da fogueira deixa claro que, ao longo dos anos, a chama que um dia iluminou uma fam\u00edlia passou a iluminar toda uma comunidade. <strong>Para Fausto Manoel Madeira Neto, o encontro do dia 29 de junho \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, da ancestralidade, da cultura popular e da capacidade que o povo negro teve de transformar resist\u00eancia em legado.<\/strong><\/p>\n<p>Fausto Neto tem tr\u00eas filhos \u2013 Pedro, Aline e J\u00falia \u2013 e pretende continuar acendendo a fogueira do bisav\u00f4 \u201cpor mais 500 anos\u201d, passando a tradi\u00e7\u00e3o para seus filhos. \u201cE os que vierem depois. Eles precisam ter essa responsabilidade e entender o que \u00e9 essa fogueira. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o familiar que precisa ser passada para a frente. Ela n\u00e3o pode morrer\u201d.<\/p>\n<h2>Programa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p><strong>O Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau come\u00e7ar\u00e1 \u00e0s 17h do dia 29. A entrada \u00e9 gratuita.<\/strong><\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o conta\u00a0com apresenta\u00e7\u00f5es da Dan\u00e7a do Mineiro Pau, jongo, m\u00fasica popular, comidas t\u00edpicas, atividades para crian\u00e7as, celebra\u00e7\u00e3o da ancestralidade e o tradicional acendimento da fogueira que h\u00e1 mais de um s\u00e9culo re\u00fane gera\u00e7\u00f5es em torno da mesma chama. (Alana Gandra)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MRNews A segunda-feira (29) marca\u00a0mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se re\u00fanem, a partir das 17h, em torno de uma fogueira. 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